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Café Literário promove debate sobre violência de gênero


Uma noite de reflexões profundas, diálogos e conscientização. Assim pode ser definido o Café Literário realizado nesta quinta-feira (16), no Solar dos Mellos – Museu da Cidade de Macaé. O encontro teve como eixo central a obra A Maçã no Escuro, de Clarice Lispector, publicada originalmente em 1961 e considerada uma das mais densas produções da literatura brasileira, marcada pela introspecção psicológica e pela investigação da condição humana.
O romance acompanha a trajetória de Martim, um homem em fuga após cometer um crime, mergulhado em um processo de reconstrução pessoal e de questionamento de sua própria masculinidade. Ao longo da narrativa, personagens femininas como “a Mulata” e Ermelinda — a prima viúva — ganham relevância ao tensionar temas como poder, desejo, vulnerabilidade e as múltiplas formas de violência, inclusive simbólicas, presentes nas relações sociais.
A programação foi conduzida pelo curador do projeto, o professor, escritor e jornalista Gerson Dudus, e contou com a participação da coordenadora do Espaço Mulher Cidadã, da Secretaria Municipal de Políticas para as Mulheres, a advogada Jane Roriz.
Durante o encontro, além da análise literária, foram debatidas questões contemporâneas relacionadas à violência contra a mulher. Macaé foi destacada como referência estadual ao alcançar a marca de 16 meses sem registros de feminicídio, segundo dados do Instituto de Segurança Pública (ISP), divulgados no último sábado (11). O resultado evidencia a eficácia das políticas públicas integradas e das ações contínuas de prevenção, acolhimento e conscientização desenvolvidas no município.
A pedagoga Cristiane Firmino, uma das participantes, ressaltou a relevância do debate. “É uma programação essencial. A literatura nos provoca e amplia o olhar sobre temas urgentes. O letramento de gênero e a participação masculina são fundamentais para avançarmos”, afirmou.

Secretaria da Mulher –
Presente, a coordenadora do Espaço Mulher Cidadã, Jane Roriz ampliou a reflexão ao destacar que iniciativas como o Café Literário cumprem papel estratégico na formação crítica da sociedade.

“Ao dialogarmos com uma obra como a de Clarice Lispector, conseguimos compreender como estruturas de poder e violência são construídas, muitas vezes de forma silenciosa, nas relações humanas. Esse tipo de atividade aproxima a população de temas complexos e fortalece o enfrentamento à violência de gênero”, pontuou.

Jane também ressaltou os avanços conquistados nas últimas décadas, como a Lei Maria da Penha, que ampliou a compreensão dos diferentes tipos de violência — física, psicológica, moral, patrimonial e sexual .

“Momentos como este são fundamentais porque conectam cultura, educação e políticas públicas. Hoje temos avanços importantes, como a Lei Maria da Penha, que ampliou o reconhecimento das diferentes formas de violência — física, psicológica, moral e patrimonial — e fortaleceu mecanismos de proteção e responsabilização. Também observamos um crescimento na procura pelos serviços especializados, resultado direto de mais informação e conscientização das mulheres”, destacou.

Jane também ressaltou que os desafios permanecem e exigem atenção contínua.

“Embora Macaé celebre 16 meses sem feminicídio, o que demonstra a efetividade das políticas públicas e da rede de proteção, ainda enfrentamos o aumento de denúncias — que, por um lado, reflete maior confiança das mulheres nos serviços —, além das subnotificações e da gravidade crescente de alguns casos. Nosso compromisso é fortalecer o atendimento humanizado, ampliar o acesso à informação e garantir que cada mulher saiba onde buscar ajuda. Informação salva vidas”, completou.
“Os desafios ainda existem, especialmente diante do aumento das denúncias, que refletem maior conscientização das mulheres, e também das subnotificações. Por isso, é fundamental continuar investindo em informação, acolhimento e políticas públicas. Quanto mais a mulher conhece seus direitos, maiores são as chances de buscar ajuda e romper o ciclo da violência”, destacou a coordenadora.

O curador Gerson Dudus também chamou atenção para os aspectos críticos da obra debatida, como a tentativa de feminicídio presente na narrativa e a hipersexualização da mulher negra, elementos que dialogam com questões ainda presentes na sociedade contemporânea.

“A literatura é uma ferramenta poderosa de sensibilização. Precisamos ampliar esses espaços de debate, especialmente envolvendo os homens, para que se tornem aliados na construção de uma cultura de respeito e equidade e se tenha o letramento de gênero. Queremos saber como funciona a legislação, onde podemos levar as pessoas e como denunciar. O homem precisa ser um aliado nesta luta: uma luta pela empatia. A literatura nos faz conscientizar para o problema e faz avançar esta percepção de acolhimento”, afirmou.

Dando continuidade à programação do mês, a Secretaria Municipal de Políticas para as Mulheres promove, no próximo dia 30, uma atividade especial em celebração ao Dia Nacional da Mulher. A data reforça a importância da luta histórica por direitos, igualdade e respeito, além de fortalecer as políticas públicas voltadas à autonomia, proteção e protagonismo feminino em Macaé.
O Café Literário no Solar dos Mellos reafirma, assim, o papel da cultura como instrumento de transformação social, aproximando conhecimento, sensibilidade e políticas públicas em prol de uma sociedade mais justa e igualitária. O Solar dos Mellos, vinculado à Secretaria Municipal de Cultura, fica na rua Conde de Araruama, 248, Centro da cidade. A entrada é gratuita.


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