Entre retalhos de memória, Lar da Cidinha reconstrói a história de mãe e filho
“Minha casa é aqui mesmo.” É assim, sem precisar pensar muito, que Maria Francisca Pereira, de 83 anos, define o Lar da Cidinha. Quando chegou à Instituição de Longa Permanência para Idosos (ILPI), em 2021, no entanto, a realidade era outra. Ela havia acabado de receber alta hospitalar, estava muito magra, não conseguia andar e tinha poucas informações e documentos que ajudassem a equipe a reconstruir sua trajetória.
Com atendimento médico, acompanhamento da enfermagem, fisioterapia, alimentação adequada e o olhar permanente da equipe multidisciplinar, Maria Francisca recuperou forças. Saiu da cadeira de rodas, voltou a andar e, aos poucos, passou a reconhecer aquele espaço como casa.
No ano seguinte, o senhor Sílvio Damaceno, 61 anos, também foi acolhido no Lar da Cidinha. Ele chegou após uma internação hospitalar, sem condições de retornar à moradia anterior e sem uma rede familiar capaz de assumir os cuidados de que necessitava. O caso foi acompanhado pelos serviços de proteção e encaminhado à instituição com a participação do Ministério Público.
Maria Francisca e Sílvio passaram, então, a dividir o mesmo endereço. Conviveram, cruzaram-se durante as refeições e participaram da rotina da casa, mas não se reconheceram. Foi somente depois, ao reunir informações fornecidas pela rede de proteção e investigar a história dos dois, que a equipe descobriu o vínculo: Maria Francisca e Sílvio eram mãe e filho.
A dificuldade para chegar a essa informação ajuda a explicar uma parte pouco conhecida do trabalho realizado em uma instituição de longa permanência. Segundo a Assistente Social Lucinéa da Câmara, muitos idosos chegam ao Lar da Cidinha com vínculos familiares rompidos, sem documentos e com informações fragmentadas sobre o próprio passado.
“A história da pessoa idosa é como uma colcha de retalhos. A gente vai juntando as partes para entender, porque, às vezes, ela chega sem informação nenhuma, sem documento e sem que a gente saiba se há familiares”, explicou.
A aproximação foi conduzida com cuidado. Ao receber a informação, Maria Francisca ainda demonstrou dificuldade para reconhecer Sílvio. Hoje, quando perguntada se está feliz por viver no mesmo espaço que ele, a resposta vem reforçada. “Muito, muito, muito. Com ele e com todo mundo”.
A descoberta, porém, não foi transformada pela equipe em um final idealizado. A Assistente Social Letícia Conceição destaca que o tempo, as experiências vividas separadamente e as limitações da memória não desaparecem com a confirmação de um parentesco.
“Mãe e filho mantêm suas próprias rotinas, e a convivência acontece no ritmo possível para os dois. Humanizar o atendimento também significa não forçar lembranças, reações ou demonstrações de afeto”, pontuou.
Para a secretária municipal de Assistência Social, Camila Saraiva, a trajetória de Maria Francisca e Sílvio revela a dimensão do trabalho realizado no Lar da Cidinha.
“Uma instituição de longa permanência não deve oferecer apenas moradia. Ela precisa garantir proteção, acesso a direitos, autonomia e, acima de tudo, respeito à história de cada pessoa idosa. O caso de Maria Francisca e Sílvio mostra como a união entre conhecimento técnico, escuta e sensibilidade pode recuperar não apenas a saúde e a dignidade, mas também vínculos e partes importantes de uma vida”, destacou.
Acolhimento exige avaliação
A história de Maria Francisca e Sílvio também ajuda a compreender o papel de uma ILPI. De acordo com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), essas instituições têm caráter residencial e são destinadas ao domicílio coletivo de pessoas com 60 anos ou mais, com ou sem suporte familiar, em condições de liberdade, dignidade e cidadania.
Isso significa que uma ILPI não é um hospital nem apenas um lugar para onde uma pessoa idosa é levada quando a família encontra dificuldades para receber cuidados. O acolhimento institucional integra a Proteção Social Especial de Alta Complexidade e depende de avaliação técnica e, por isso, o serviço é destinado, entre outros casos, a pessoas idosas em situação de abandono, negligência, violência, vulnerabilidade social ou com vínculos familiares fragilizados ou rompidos.
Em Cabo Frio, o ingresso no Lar da Cidinha não ocorre por demanda espontânea. Não é possível procurar diretamente a instituição e solicitar uma vaga. Os casos precisam ser acompanhados pela rede de proteção, especialmente pelo Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS), e podem contar com a atuação do Ministério Público.
Durante o processo, são avaliadas a situação de vulnerabilidade da pessoa idosa, a existência ou não de familiares, as condições dessa família para oferecer suporte e os riscos aos quais ela está submetida. A medida evita que o acolhimento seja utilizado como uma simples transferência de responsabilidade e garante que as vagas sejam destinadas a quem efetivamente precisa de proteção integral.
O Lar da Cidinha é mantido pela Prefeitura de Cabo Frio e constitui a única ILPI municipal da cidade. O acolhimento é gratuito. A unidade tem capacidade para 40 moradores e, atualmente, atende 38 pessoas. A procura é superior ao número de vagas, mas a entrada não segue apenas uma ordem cronológica: cada situação precisa ser analisada de acordo com os critérios técnicos e legais.
Cuidado que também preserva memórias
A rotina no Lar da Cidinha começa cedo e envolve banhos, refeições, administração de medicamentos, atendimentos de saúde e atividades coletivas. A unidade conta com profissionais de Serviço Social, Psicologia, Medicina, Fisioterapia, Nutrição e Enfermagem, além de cuidadores e equipes administrativas, de cozinha e de apoio.
Embora exista uma organização coletiva, o desafio diário é respeitar as necessidades, as limitações e as preferências de cada morador. No caso de Maria Francisca, a integração entre alimentação, acompanhamento médico, enfermagem e fisioterapia foi fundamental para que ela recuperasse a mobilidade e parte da autonomia.
A nutricionista Caroline Melcher explica que o cardápio e a suplementação alimentar são planejados para ajudar na preservação da massa muscular e da independência funcional. O cuidado com a alimentação, no entanto, vai além dos nutrientes.
“Não é só fornecer comida. É preservar a memória. A comida também tem esse papel de conforto”, afirma.
Por isso, churrascos, feijoadas e comemorações dos aniversariantes do mês integram a rotina da casa. Os cardápios especiais são escolhidos com a participação dos moradores e ajudam a recuperar sabores, lembranças e experiências que fizeram parte da vida de cada um.
Na avaliação da equipe, os resultados aparecem tanto nas evoluções clínicas quanto em gestos cotidianos, como uma pessoa que volta a caminhar, outra que recupera o apetite, ou alguém que pede para telefonar a um familiar.
Para a gerente de Enfermagem, Fabíola da Costa Santos, acompanhar essas mudanças dá sentido ao trabalho realizado na instituição.
“É muito gratificante ver a evolução deles. Muitos chegam em situação de vulnerabilidade, risco ou abandono. Quando vemos uma pessoa idosa recuperar a saúde, a autonomia e a dignidade, percebemos o significado do nosso trabalho”, afirma.
Maria Francisca resume esse acolhimento à sua maneira. Quando perguntada de quem mais gosta no Lar da Cidinha, evita escolher um nome. “Primeiramente, Deus. Depois, todo mundo”, responde.
E, olhando para a casa onde recuperou a saúde, encontrou cuidado e também uma parte da própria história, finaliza: “Aqui é para lá de uma família”.
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